Blog do Fernando Mesquita

Insights, pensamentos e reflexões

Mês: março, 2013

Tarefas. Basta anotar?

A literatura da produtividade é vasta em conteúdo, mas às vezes escassa em resultados. No que diz respeito às tarefas, lemos que é preciso “anotar o que se vai fazer”. Mas isso é suficiente?

Li recentemente que, em uma pesquisa realizada, dois grupos de estudantes de uma faculdade receberam uma correspondência pedindo doações de roupas usadas. A diferença entre os grupos é que, em uma das cartas, havia a indicação detalhada de como, onde e em que horário as doações poderiam ser feitas. No segundo grupo, apenas o pedido, com um número de telefone para os interessados. Adivinhe o que aconteceu? O primeiro grupo doou 80% mais roupas do que o segundo.

Mas Fernando, o que isso tem a ver com tarefas? Ah, aqui vamos (prenda a respiração): não basta anotar as tarefas para que elas sejam concluídas.

Chocante, eu sei, mas é a realidade.

Uma das dicas mais interessantes que já li em termos de produtividade refere-se à forma, não ao conteúdo das anotações.

O autor (que infelizmente não me lembro quem era) dizia que, quanto mais detalhadas forem as instruções, maior a probabilidade de que você as siga adequadamente.

Assim, as instruções “terminar o trabalho”, “limpar a casa” e “estudar Direito Constitucional” não são suficientes. É preciso mais.

(A essa altura, não me entenda mal. Anotar o que vai ser feito é fundamental para a eficiência e para a produtividade – mas a probabilidade de realização da tarefa aumenta com o seu grau de detalhamento).

Então, se temos como tarefa “Terminar o trabalho”, isso poderia ser detalhado em:

  1. Ligar para o Carlos e coletar os últimos detalhes do relatório
  2. Imprimir a capa do documento
  3. Terminar a formatação (fontes, espaçamento e margens)
  4. Conferir os dados – revisar texto
  5. Cobrar os últimos detalhes do Carlos (é um procrastinador)
  6. Imprimir o trabalho
  7. Checar custo da encadernação
  8. Encadernar o trabalho
  9. Agendar entrega
  10. Entregar

No segundo exemplo, “limpar a casa” pode ser uma coisa extremamente cansativa, inclusive de se pensar. Quando pensamos em atividades menores, entretanto, tudo fica mais fácil:

  1. Recolher roupas sujas – colocá-las no cesto
  2. Passar o rodo no chão
  3. Aspirar
  4. Arrumar as mesas
  5. Lavar louças
  6. Guardar louças
  7. Colocar roupas para lavar
  8. Tirar o pó dos móveis

A coisa, claro, vai melhorando.

Em relação ao estudo, que é uma das partes mais interessantes, quanto mais detalhadas forem as tarefas, melhor, inclusive para poder antecipar algumas delas (caso você seja um estudante responsável que se organiza no início da semana). Estudar Direito Constitucional pode virar:

  1. Analisar edital (anterior ou atual)
  2. Separar tópicos do edital
  3. Separar livros e cadernos (ou computador) para o estudo
  4. Escolher tópicos a serem estudados na semana
  5. Coletar exercícios a serem resolvidos
  6. Arrumar espaço de estudos (deixar tudo a postos – lápis, canetas, materiais)
  7. Desligar celular
  8. Dar uma última conferida no facebook
  9. Fechar o facebook
  10. Resistir ao impulso de abrir o facebook
  11. Desistir
  12. Abrir o facebook
  13. Fechar o facebook
  14. Estudar tópico 1. (ler, exercitar e revisar)

Brincadeiras à parte, é uma atividade bem simples que talvez exija um pouco de esforço no início. O benefício, entretanto, é enorme – cada pequena tarefa cumprida dá um ar de alívio e uma sensação de que o trabalho está andando. Enquanto “Terminar o trabalho” é uma coisa só (que corre o risco de nunca ser finalizada) pequenas tarefas são mais fáceis de serem resolvidas.

Em relação a tarefas, sugiro que você dê uma olhada no site www.asana.com – é um software específico para tarefas. Foi, inclusive, criado por um dos fundadores do Facebook (que contradição). Ele é em inglês e é bem simples de ser utilizado. Vale a pena conferir.

Boas tarefas!

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Você sabe fazer perguntas?

Somos obcecados por respostas. Queremos respostas o tempo todo, sem pestanejar. Queremos que elas venham rápido e sem distrações. Mas… fazemos as perguntas certas?

Douglas Adams, no livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias” (provavelmente a melhor sátira sci-fi sobre a humanidade já escrita) traz um exemplo bastante interessantes sobre isso. Após uma série de acontecimentos, os ratos produzem um computador sobre potente para dizer qual é a resposta “para a vida, o Universo e tudo mais”. O computador pede alguns milhões de anos para calcular a resposta.

Esses milhões de anos, claro, comportam várias gerações. Quando chega a hora de o computador revelar a resposta, pessoas de todos os planetas de todas as galáxias se reúnem para ouvir a “resposta fundamental para a vida, o Universo e tudo mais”. O computador perguntam se estão prontos. Os presentes gritam insanos, dizendo que sim, ávidos pela resposta. O computador diz “mas vocês não vão gostar”. As pessoas ignoram. Por fim, o computador diz: ” A resposta para a vida, o Universo e tudo mais é…

(um silêncio quase audível se forma)

42.

Apesar de Adams ser um mestre na narrativa satírica, a mensagem que ele queria passar (e de fato passou algumas páginas depois) é que o problema geralmente não vem das respostas, mas das perguntas que fazemos.

Regra geral, ao nos depararmos com um caso de grandes dimensões, começamos a levantar hipóteses e possibilidades. Mas como podemos fazer isso quando não sabemos do que se trata a questão?

Fazer (boas) perguntas é um dos hábitos mais importantes que podemos – e devemos – adquirir.

Uma pergunta pode ser considerada boa quando ajuda a entender, clarear ou expandir o campo de resolução de uma incógnita.

Exemplo simples: meu carro pára (nunca abandonarei meu acento) na rua. Posso começar a chutar o carro e dizer que o problema era gasolina ou falta de manutenção. Entretanto, nada disso ajuda. Se o carro é consertado e volta a apresentar o mesmo problema, é importante começar a perceber padrões e tirar conclusões baseado nisso. Mas os padrões emergem com… adivinhe… perguntas.

Quando meu carro pára? De onde vim? O motor estava frio ou quente? Tinha gasolina? Quais problemas já aconteceram antes?

Embora pareça trivial, muitas pessoas não conseguem assumir essa postura.

No ambiente de trabalho, as perguntas são igualmente importantes. Se recebo uma atribuição de meu chefe, de construir uma determinada solução para os negócios, não basta assumir o trabalho e começar a produzir. É preciso fazer perguntas. Quem vai operar a solução? Quais dados são importantes? Como vão ser coletados? Como vão ser recuperados? Qual a funcionalidade esperada? O que os clientes realmente desejam? O que ele pode querer que nem sabe ainda? O que vai ser pedido depois? Qual o desdobramento lógico desse pedido em termos de atividades futuras? O que pode ser antecipado?

Perguntar é um processo inicialmente trabalhoso, mas extremamente recompensador. Faça disso um hábito – os resultados serão rápidos e impressionantes.

P.S.: Após dizer a resposta fundamental, o computador diz que, para saberem a pergunta fundamental, deverão construir outro computador, que levará outros milhões de anos calculando-a. No final do livro, quando os seres estão quase para descobrir qual a pergunta fundamental… bem… leia o livro e descubra. Não quero ser um spoiler.

Trabalhamos todos com vendas. E só vende quem pensa como o outro.

Em uma escola de negócios, os participantes foram divididos em três grupos para participar, em 2008, de um estudo – uma simulação da negociação de um posto de gasolina. A problemática era simples: o valor máximo que o comprador estava disposto a pagar era menor do que o valor mínimo que o vendedor estava disposto a aceitar. Entretanto, havia outros pontos de interesse mútuo que, se trabalhados, poderiam levar a uma proposta que os dois aceitariam.

A cada um dos grupos, então, foi dada uma instrução. Ao primeiro foi dito que imaginasse como a outra parte estava se sentindo. Ao segundo, foi dito que pensasse em como a outra parte estava pensando. Ao terceiro, o grupo de controle, foram dadas informações genéricas e sem sentido para o caso concreto.

Daí vem a parte interessante: o primeiro grupo fechou muito mais negócios do que o grupo de controle – o que era de se esperar, considerando que a empatia acaba vencendo algumas desavenças. Mas o pessoal da perspectiva (o segundo grupo), fechou negócio quase 76% das vezes.

A história acima foi retirada do livro To Sell is Human, do Daniel Pink. O argumento do autor é direto: estamos (quase) todos no ramo de vendas. Podemos estar nele diretamente (vendendo produtos ou serviços), mas também seremos vendedores se tivermos, como atribuição diária, de convencer, influenciar, incentivar ou instruir. E muita gente, hoje em dia, está nesse grupo.

As implicações do experimento são bastante esclarecedoras: se você tiver de convencer alguém a fazer algo, a melhor forma é assumir a perspectiva daquela pessoa, analisando a quantidade de informação de que ela dispõe, quais são os atributos que estão em jogo, quais as perspectivas das decisões. Inclusive, e isso faz muito sentido, entender como a pessoa pensa, de forma ampla, é a melhor forma de adequar a opção a um formato que a agrade.

Você já teve de apresentar uma ideia que lhe parecia ótima, mas que foi recusada aparentemente sem razão? Pode estar aí a falha de procedimento. “Vender”, hoje em dia, inclui mostrar por que uma decisão pode ser a “melhor”. O problema é que “melhor” depende de uma série de fatores. Os seus melhores fatores talvez não sejam os melhores fatores para o decisor. Você é capaz de adequar a situação para que ele(a) veja o que há de melhor nisso? Comece o dia pensando em como influenciar alguém.

Atitude e sucesso

Outro dia, passeando com a esposa, tive a oportunidade de visitar uma pizzaria em Brasília da qual já éramos clientes – mas só da entrega.

A pizza era boa e estávamos nas redondezas. Resolvemos dar um pulo lá. O restaurante estava vazio e o que mais me chamou a atenção foi o atendimento.

O atendimento em Brasília é lamentável. Ultimamente, tenho quase pedido desculpas por entrar nos lugares. Sinto-me praticamente na obrigação de agradecer quando saio de uma loja – porque, aparentemente, estão me fazendo um favor ao atender-me. Tudo bem.

Não lá. O atendimento foi impecável. Do início ao fim. Pedimos uma pizza com azeitonas só na metade (não gosto de azeitonas, mas a Gabi gosta), pizza de chocolate com banana, mas banana só na metade (já que ela não gosta de misturar frutas na comida). Fomos atendidos. E sempre com um sorriso e um “com licença”.

Isso tudo para dizer que o sucesso, quando bem embasado, é uma questão de tempo. Vemos várias vezes estabelecimentos promissores falharem quando o dono dá um passo maior do que a perna – abre mais uma loja sem poder cuidar, contrata mais funcionários do que precisa ou menos do que o necessário.

Entretanto, se você tem uma boa base (funcionários bem treinados, ambiente adequado, bons produtos e uma equipe que preza por aquilo que faz), o sucesso é uma questão de tempo. Assim como na vida profissional.

Muitas vezes passamos meses ou anos fazendo coisas cujo resultado não vemos. Uma pós-graduação, um investimento em livros ou cursos ou habilidades cujo efeito talvez não possam ser imediatamente percebidos. Mas, no longo prazo, o que diferencia quem fica de quem sai é um compromisso com a qualidade e com a excelência. Pode até ser que você não entenda a razão do sucesso (por ser um processo), mas isso certamente vai ajudá-lo a mantê-lo.

Inclusive, a pizzaria, para os habitantes da capital, é a pizzaria Principal, na 209 norte. Não, eles não me pagaram pela propaganda, mas vou solicitar minhas pizzas grátis lá depois. =D

A fábula do ocupado

Como toda boa máxima, existe aquela que diz que “Se você quer que algo seja feito, peça a quem está ocupado“.

Nos últimos anos, no trabalho, tenho observado cada vez mais essa realidade em ação. Seguindo a lógica de Pareto (pai da relação 80-20), pode-se dizer com relativa tranquilidade que, em dada organização, 20% das pessoas realizam 80% das tarefas.

A lógica do dizer é impressionante. Se uma pessoa é ou está mais ocupada do que outras, podemos concluir, logicamente, que ela trabalha mais ou melhor do que outras. Fica difícil dizer o que é causa e o que é efeito sem cair no paradoxo Tostines, mas havemos de lembrar que você tende a pedir (como chefe ou supervisor) para alguém realizar determinada tarefa se essa pessoa: a) sabe como fazer; b) trabalha bem de forma geral, mesmo que não tenha habilidade com aquilo especificamente; c) está disposta a fazer as coisas sem te dar trabalho o – o famoso “não me traga problemas, me traga soluções”.

Tudo isso não seria de se estranhar, já que em todos os lugares há posições profissionais naturalmente mais demandantes do que outras. O revés ocorre quando pessoas de atribuições parecidas têm atuações tão discrepantes. Isso, sim, gera diversos problemas.

Primeiro, começamos a formar “ilhas” de excelência – grupos de pessoas com mais habilidades (e, por isso, mais atribuições) do que os demais. É o início do reforço do princípio de Pareto. Damos cada vez mais trabalho a quem trabalha mais.

Depois, em decorrência do primeiro, cada vez mais se vê quem mais trabalha esperando recompensas maiores (reagimos a estímulos, como salário, reconhecimento, liberdade, responsabilidade) – que nem sempre virão. É nesse momento que as pessoas mais importantes começam a pensar em abandonar o barco.

Na iniciativa privada, se há a possibilidade, acabamos por promover as pessoas que trabalham mais, como forma de reconhecimento. No serviço público, por mais que um servidor seja bom, não há muito que o gestor possa fazer, a não um esporádico tapinhas nas costas e um “parabéns”.

A sorte é que, normalmente, que muito trabalha não o faz apenas pelo reconhecimento, mas pela satisfação que dá. São pessoas com um senso de responsabilidade intrínseco, que acreditam no valor do trabalho bem realizado e esperam um futuro melhor – independente de suas recompensas imediatas. Mas até essas pessoas precisam, vez ou outra, ser reconhecidas. Caso contrário, o melhor das organizações começa a migrar, procurando um local que as acolha como esperam.

Aprender a não saber

A adolescência se foi (há algum tempo) e levou consigo todas as certezas que existiam. Hoje, me pego mais vezes assumindo que não entendo nada sobre algo do que dando conselhos.

Saber não é errado.O problema é pensar que sabe sem saber. E muitas vezes fazemos isso. Vou falar sobre o viés da informação parcial qualquer dia (Quando acreditamos que os fragmentos de informações são suficientes para decidir algo – e decidimos só com eles).

A humildade vem com o tempo, e sei que estou bem longe de onde gostaria. Mas queria ver as pessoas assumirem mais que não sabem ou que não entendem. E gostaria que procurassem a informação, perguntando ou pesquisando.

Temos de ter cuidado para não achar que a única verdade está em nós mesmos, quando perdemos a chance de descobrir que não sabemos muitas das coisas que damos como certas. Quando acreditamos que sabemos, perdemos a chance de aprender. Não saber, na verdade, é o caminho do aprendizado. Sobre coisas mas, principalmente, sobre pessoas. Pense nisso.

WYSIATI – What you see is all that is OU O que você vê é tudo que há

Ano passado, intenso em termos de emoções literárias, tive o prazer de esbarrar com uma obra no iBooks chamada Rápido e Devagar – Duas formas de pensar.

A temática do livro é, em suma, a forma como tomamos decisões na vida. Pense só, um assunto a que não damos tanta importância.

O livro é especialmente interessante por duas razões: uma porque vai, em parte, contra o livro “Blink – a decisão num piscar de olhos”, do Malcolm Gladwell (outro livro sensacional) e, segundo, porque nos faz pensar em algo que quase não pensamos, que é a forma como tomamos decisões (ou fazemos recomendações, cuja essência é a mesma).

O autor, Daniel Kahneman, (um teórico israelense das finanças comportamentais (behaviorais), que combina a economia com a ciência cognitiva para explicar o comportamento aparentemente irracional da gestão do risco pelos seres humanos e ganhador do prêmio Nobel de economia em 2002), explora com desprendimento os vieses a que estamos sujeitos em todos os momentos em que pensamos ou agimos (o que, no início, é particularmente perturbador).

Um desses vieses é o WYSIATI (cujo original aparece no título do post e pode ser traduzido para o português como “O que você vê é tudo que há”). Kahneman exemplifica essa particularidade no seguinte trecho:

“Considere o seguinte: “Mindil será uma boa líder? Ela é inteligente e forte…” Uma resposta veio rapidamente à sua mente, e a resposta foi sim. Você escolheu a melhor resposta baseado na informação muito limitada disponível, mas saiu correndo antes de ouvir o tiro de largada. E se os dois adjetivos que viessem a seguir fossem corrupta e cruel?

 

Observe o que você não fez quando pensou brevemente em Mindik como uma líder. Você não começou por se perguntar: “O que eu precisaria saber antes de ter formado uma opinião sobre a qualidade de liderança de alguém?”

A ideia é brilhante porque nos influencia em quase todos os momentos da vida. O tempo todo, estamos cercados de informações parciais e temos de tomar decisões baseados em fragmentos que, longe de serem conclusivos, muitas vezes nos deixam com mais perguntas do que respostas.

Comecei a pensar nisso recentemente por conta das recomendações que ouvimos para concursos, por exemplo (escrevendo um livro sobre o assunto, fatalmente passaremos muito por isso). As pessoas estabelecem recomendações com base naquilo que fizeram ou que viram outros fazerem com sucesso. Mas isso é um absurdo de parcialidade. 

Mas se é tão absurdo assim (principalmente considerando que, de 10 milhões de pessoas que fazem concursos todos os anos, você conhece em torno de 10 indivíduos), porque esses conselhos fazem sucesso? Por que as pessoas seguem essas recomendações? E, mais importante, por que são considerados “especialistas” tendo em vista que mal sabem do que falam?

A resposta vem no próprio livro do autor israelense:

A consistência da informação é que importa para uma boa história, não sua completude. Na verdade, você muitas vezes vai descobrir que saber pouco torna mais fácil ajustar tudo que você sabe em um padrão coerente.

Ora, então a resposta está dos dois lados da equação: primeiro, quem dá o recado acredita que aquilo seja verdade, e encontra uma saída dialética transcendental kantiana para adequar toda a realidade ao discurso. Do outro lado, as pessoas que ouvem querem crer que aquilo seja verdade – sem ter fontes confiáveis de informação, acreditam naquilo que está disponível e que parece confiável.

Consistência é um fator não necessariamente intrínseco, mas que também tangencia a história. A trajetória pessoal e profissional do transmissor tem peso igualmente importante (ou, às vezes, até maior) do que a lógica de sua argumentação. Por isso, acreditamos tão fielmente em professores, palestrantes e consultores. São profissionais, em tese, profundamente preparados para emitir conceitos sobre aquilo que falam.

O problema é quando a história não fecha. O que acontece quando o professor é iniciante ou quando não conhecemos o passado do consultor (qualquer que seja) que nos bate à porta? Simplesmente ignoramos essa informação. WYSIATI. O que não está ali “não existe”, portanto não compõe nosso campo de análise.

Emitimos conceitos o tempo todo, mas nem sempre nos preocupamos com a validade deles. E cada coisa que dizemos, se atinge alguém, pode provocar efeitos duradouros. Temos de tomar cuidado não só com o que emitimos, mas também com o que recebemos. Ainda mais em fase de internet e de Wikipedia que, mesmo com seus valores inegáveis, nos provocam problemas diversos, é importante adquirir senso crítico e conhecer os dois lados da história – nem que seja pelo prazer da confusão, que pode levar ao esclarecimento cedo ou tarde.

Vida, empreendedorismo, escola e tolerância a erros

Embora a recente profusão de aparelhos digitais nas escolas torne isso difícil de acreditar, na minha infância, nós usávamos cadernos. De um, em especial, me recordo muito bem: a capa trazia a ilustração de um homem das cavernas, barbudo e com roupa de Flintstone com várias tentativas, ao fundo, de criar rodas: quadradas, triangulares, polígonos – e, em primeiro plano, um desenho desse homem das cavernas, todo orgulhoso, segurando um martelo e uma roda… redonda.

Os dizeres do caderno eram “só erra quem faz“. A ideia era perfeita. Minha preocupação era a adequação dessa mensagem ao contexto em que pretendia ser  vista – a escola. Cheguei à conclusão que era a mensagem correta para o contexto inadequado. A escola não aceita erros.

Hoje, entrei em uma discussão filosófica sobre o empreendedorismo e se é possível ensiná-lo. Bel Pesce, autora brasileira, com livro recentemente publicado (A Menina do Vale), é uma empreendedora da era da internet. Lançou um aplicativo para smartphones chamado Lemmon, que armazena dados de cartões de crédito e outros para criar uma “carteira virtual”. Pesce veio do exterior ao Brasil para abrir uma “Escola de Empreendedorismo”. Mas será que os termos “escola” e “empreendedorismo” não formariam um oxímoro? Explico: a escola, salvo honrosas exceções, ensina que o erro não é tolerado. Principalmente porque o conteúdo que se aprende na escola não comporta várias respostas.

Você faz uma prova, testes e perguntas cujas respostas já estão estabelecidas há muito tempo. Na vida real, no empreendedorismo, nem sempre isso é possível. Quando se trata de tentar prever o futuro, analisar tendências, escolher cenários – e não de falar do passado ou daquilo que já foi feito (como normalmente é o caso nas escolas), é difícil afirmar que algo vai dar certo ou não – são muitas as variáveis. O empreendedorismo tem um milhão de respostas certas, que dependem do contexto, do personagem, do meio, do suporte (físico, logístico, marketístico [uau! neologismo!]).

Henry Ford, quando perguntado por que não consultava os clientes sobre as preferências deles (depois de ser imortalizado ao dizer que os clientes poderiam escolher qualquer cor do Ford T, desde que fosse preto), disse “se eu perguntasse aos meus clientes o que querem, eles diriam que querem cavalos mais velozes”. Era um visionário.

Assim, é difícil lidar com a relação escola-empreendedorismo – a vida real comporta erros, que são necessários. E, de fato, só erra quem faz. A filosofia contrária a essa crença torna, por exemplo, o ambiente de trabalho – extensão da escola – muito danoso. Você cria a expectativa de um funcionário perfeito. O problema é que, se não há espaço para enganos, não há espaço para a agregação do valor que vem com a experiência. O mesmo se aplica à família, com suas necessárias adaptações.

Escrevendo o livro sobre concursos (www.concursandosolivro.com.br), vi que uma das coisas que as pessoas demoram mais tempo para perceber é que as falhas vão estar muito mais presentes do que os sucessos. Serão muito mais reprovadas do que aprovadas. Mas, no final das contas, ninguém quer saber em quantas provas você NÃO passou.

Tolerar erros é essencial, tanto na vida quanto no trabalho. O empreendedorismo é uma atividade muito ligada ao erro. O empreendedor convive com ele diariamente – lançando produtos que não dão certo, campanhas que não dão retorno, iniciativas pouco frutíferas. Mas um dia vai acertar. E espera ser lembrado pelos acertos.

É possível ensinar empreendedorismo? Acredito que seja possível ensinar tarefas importantes ao empreendedor: gestão de pessoas, gestão financeira, recursos materiais. Mas a essência da atividade tem de ser fruto de reflexão, autoconhecimento e senso crítico. O erro é, sim, essencial e inevitável. A pergunta que fica é se o ambiente escolar será capaz de evoluir a ponto de tornar-se adequado a instigar (nem digo ensinar) esse tipo de comportamento. E se nós seremos capazes de entender que o erro é parte inseparável do crescimento em toda circunstância.

Você na internet – nunca foi tão fácil?

Alguns anos atrás, quando ainda tinha o estúdio, alguns problemas surgiram: era preciso fazer um site, com conteúdo e estrutura interessante, que fosse acessível, tivesse um formulário de contato e oferecesse valor para os clientes. Claro que isso tudo era muito complicado.

Aprendi a usar Flash, que longe de ser uma ferramenta ideal, quebrava o galho à época. Mas flash não roda nos apples e em alguns outros dispositivos. Então, fiz um site em Photoshop (sim, dá pra fazer – legal, hein?), que também não era o ideal mas fazia. Ainda assim, era um processo deveras complicado.

Tempo vai, tempo vem, chegamos a 2013. Novos projetos e novos rumos – e eu de novo querendo um site. Dessa vez, entretanto, nossos (pelo menos parte dos meus) sonhos se realizaram: hoje é FÁCIL fazer um site.

Todas as ferramentas são automatizadas. Com o próprio wordpress é possível construir um conteúdo interessante, que não tenha cara puramente de blog – nada contra eles, claro. Não gostou? Compre um tema que tem ainda mais aparência de site sério e profissional. Registro do nome, hospedagem, e até mesmo o formulário de contato, que durante muito tempo foi uma pedra no meu sapato, há sites especializados em tudo isso.

Isso tudo para dizer que tanto Garr Reynolds quanto Tom Peters estavam certos: chegará um momento em que não ter uma página na internet fará você não existir. O Facebook resolve, sim, parcialmente o problema. Mas é claro que isso tem um custo de privacidade alto para algumas pessoas (mesmo aquelas que protegem seus dados. Não estamos protegidos do próprio facebook).

Hoje, com o auxílio dos adobes Muse, Fireworks, Photoshop e do Wufoo (para formulários), em 30 minutos é possível ter um site pronto e no ar. Serviços como GoDaddy, Registro.br e 100br.com fazer a parte do registro do nome. Hostnet e BusinessCatalyst fazem a hospedagem. Muse prepara o site e Wufoo cria a interface com o usuário por meio dos formulários – qualquer que seja a necessidade.

Uma pessoa com boas ideias, boa vontade, criatividade e um cartão de crédito também pode fazer parte do mundo globalizado

Seth Godin, Paixão e Excelência

Ok, eu admito. Sou doido por livros. Se pudesse, leria o dia todo, com pausas pontuais para passear com o cachorro e respirar ar livre (isso, se não pudesse ler ao ar livre com o cachorro correndo ao redor).

Ultimamente, já não tenho lido tanto, em parte por conta do livro (www.concursandosolivro.com.br), em parte por conta do trabalho.

Recentemente, entretanto, terminei de ler o livro do Seth Godin – Linchpin: Are you indispensable?

Um padrão que percebi nos últimos anos é que os livros dividem-se em 3 etapas mais ou menos definidas: falar sobre o trabalho (sobre o qual nada sabíamos), falar sobre como sair do trabalho e ser feliz (quando entendemos alguma coisa) e falar sobre como ser bom e feliz no trabalho que temos (que me parece uma ideia mais equilibrada).

Godin fala sobre a “arte” no trabalho – aquilo que você faz quando você brilha, quando você é bom e quando se torna indispensável. O que, de uma certa forma, me faz pensar em como o trabalho deveria de fato ser. Imagine estar em um lugar onde as pessoas apreciam o que você faz e querem que você faça e sofrem quando você não faz. Às vezes, pode ser exaustivo, mas certamente é recompensador.

Se isso muitas vezes não acontece, Peter Senge (autor do “A quinta disciplina” – também sensacional) nos diz que o problema pode começar em nós, como normalmente começa.

Ser indispensável é uma escolha, como o próprio Godin ressalta, mas uma escolha muitas vezes desconfortável, porque envolve lutar contra uma série de condicionamentos psicológicos que vêm de muitos anos. Medo de não conseguir, medo de falhar, medo de críticas. Mas a opção feita certamente tem seus benefícios – incluindo a tão sonhada realização profissional e a abertura de novos caminhos (sim, mesmo no serviço público).

Altamente recomendado. O cara é bom.

A pesquisa do livro continua correndo. Responda (se você for servidor público ou candidato a concursos) e divulgue para os amigos (mesmo que eles não sejam, porque certamente conhecem alguém que o é). Concursandos – O livro. A maior pesquisa sobre concursos públicos já realizada no Brasil.

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